Quando tradição precisou se reinventar

Há mais de vinte anos, o Meu Cantinho ocupa um lugar fixo na memória gastronômica de Boa Vista.

Quando tradição precisou se reinventar
José Ricarte, CEO do Restaurante Meu Cantinho, em pé no salão do estabelecimento, com clientes ao fundo.

Fundado em 2002, o restaurante cresceu acompanhando as transformações da cidade e do próprio mercado. Entre tradição familiar e momentos de reinvenção, consolidou-se como um dos mais antigos da capital e referência em carnes, especialmente picanha e carneiro.

Fachada do Restaurante Meu Cantinho, com estrutura rústica em madeira.

José Ricarte, atual CEO do restaurante, cresceu dentro do comércio familiar. O fundador do Meu Cantinho, agricultor e empresário, conduzia o negócio com práticas mais tradicionais. Foi nesse ambiente que ele deu os primeiros passos na profissão.

Ao falar sobre essa influência, ele resume: 

“Sempre fui muito ligado ao meu pai. Meu pai era empresário, agricultor. Desde essa época, sempre me dediquei muito ao comércio. Segui muitos passos dele em termos de comércio.”

Com o tempo, passou a assumir novas responsabilidades e a dar continuidade ao que o pai havia construído, modernizando processos e adaptando o restaurante às mudanças do mercado, sem perder a essência da casa.

Porção de carne grelhada servida quente em chapa, com pedaços dourados e suculentos.

O restaurante, no entanto, não começou no ramo das carnes. Antes, houve uma peixada. Incentivado pela esposa, que reconhecia sua afinidade com a cozinha, José Ricarte abriu a “Peixada Fino de Sabor”. O formato funcionou por cerca de dois anos e meio, até que o mercado sinalizou uma nova oportunidade.

Ao lembrar desse período, ele recorda: 

“Passei mais ou menos uns dois anos e meio nessa peixada. Aí depois surgiu essa febre do carneiro.”

No início dos anos 2000, o consumo de carneiro cresceu de forma expressiva na região. Foi por conta desse movimento que ele decidiu migrar para o ramo das carnes, decisão que definiria o posicionamento do restaurante. Desde então, o Meu Cantinho construiu sua reputação no boca a boca, sustentado pela qualidade.

A pandemia como ponto de virada

A pandemia representou o maior ponto de ruptura da trajetória. Quem relembra esse período é Mirela Ricarte, gerente administrativa e filha do fundador.

Mirela Ricarte, gerente administrativa do Restaurante Meu Cantinho.

Segundo ela, aquele foi um momento decisivo não apenas para o negócio, mas para o próprio pai enquanto empreendedor. A gestão ainda carregava traços de uma administração mais conservadora, resistente à digitalização do atendimento. De repente, o movimento caiu drasticamente e a necessidade de se reinventar deixou de ser opção.

“Desafio mesmo foi a pandemia. Foi uma época transformadora para o meu pai enquanto empreendedor. Ele vivia numa administração muito arcaica e era muito avesso a implantar atendimento digitalizado. O ritmo baixou 100% e ele teve que se reinventar numa crise”, relembra.

Foi quando Mirela assumiu a linha de frente da operação. Sem demitir funcionários, a equipe reorganizou processos e decidiu impulsionar o delivery de maneira estruturada.

Nesse contexto, a digitalização dos pedidos ganhou protagonismo e a implementação da plataforma PIGZ passou a transformar a rotina do restaurante.

Maquininha Stone com o sistema PIGZ, utilizada no Restaurante Meu Cantinho para processamento de pedidos.
Maquininha Stone com o sistema PIGZ, utilizada no Restaurante Meu Cantinho para processamento de pedidos.

A agilidade melhorou significativamente, tanto no recebimento quanto na organização dos pedidos. O que antes era mais manual, tornou-se profissional.

José Ricarte reconhece que a mudança foi marcante. O restaurante já trabalhava com entregas, mas em um formato muito diferente do atual. Hoje, segundo ele, o processo é mais estruturado, a ponto de ser difícil imaginar como a operação funcionava antes. A modernização não apagou a tradição da casa. Pelo contrário, permitiu que ela continuasse existindo em um cenário completamente novo.

Tradição que permanece

José Ricarte, CEO do Meu Cantinho, conversando com clientes no salão durante o funcionamento do estabelecimento.

Apesar das mudanças, o restaurante mantém seu perfil rústico e familiar. Não se apresenta como sofisticado, mas como um espaço de qualidade e sabor consistente. Ambiente ventilado, vista agradável e atendimento próximo continuam sendo parte da experiência. Hoje, quando se fala em picanha e carneiro, o Meu Cantinho já ocupa um lugar consolidado na memória gastronômica da cidade.

O conselho de quem atravessou crises

Clientes reunidos em mesa compartilhando porções de carne e acompanhamentos no Meu Cantinho.

Para quem deseja empreender, José Ricarte fala com pragmatismo. Defende pesquisa de mercado, estudo do público e preparo técnico antes de abrir as portas. Mais do que entusiasmo, ele destaca duas palavras que considera essenciais no comércio: persistência e resiliência.

Ao compartilhar o conselho que carrega da própria trajetória, ele recorda: 

“Faça uma pesquisa de mercado. Veja qual é o público que você quer atingir. Estude o ramo, faça cursos e melhore tudo dentro de um restaurante.”

Porque, como ele aprendeu na prática, tradição é importante, mas adaptação é indispensável.

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